"Uma sombra esvaecida"
“De tanta inspiração e tanta vida,
Que os nervos convulsivos inflamava
E ardia sem conforto...
O que resta? — uma sombra esvaecida”{Álvares de Azevedo, em ‘Um cadáver de poeta’}
Passamos da idade, você não vê?!
Passamos da idade de escrever poesia. Se duvidar, até de acreditar nela.
Passamos da idade dos arroubos de paixão e sofrimento, do bater de portas, da melancolina das noites, de morrer de amor.
Não. Agora, estamos na idade de morrer do coração — de infarto mesmo.
Agora é tempo das pneumonias, das sepsias, da hipertensão.
E, no entanto, a pulsão continua, profundamente mal-educada.
A paixão vem, como criança impertinente.
E ela não consulta a certidão de nascimento antes de entrar.
Ela não respeita os nossos fios brancos e nossas rugas.
Aparece quando já deveríamos saber melhor. Quando já aprendemos sobre impostos, financiamentos, colesterol alto e prazos de entrega. Quando o drama deveria ter dado lugar ao planejamento financeiro e aos exames de rotina.
Mas ela vem. A paixão.
E é quase constrangedor.
Porque já não temos idade para passar três dias ouvindo Vento no Litoral acreditando que ninguém jamais sofreu daquele jeito. Não temos idade para escrever nomes em cadernos, faltar à aula ou jurar que a vida acabou numa terça-feira de julho.
Temos reuniões às oito.
Temos roupa para estender ou recolher.
Temos um encanamento vazando e uma conta do cartão que vence amanhã.
O mundo exige que continuemos funcionando enquanto alguma coisa, por dentro, insiste em agir como se ainda tivesse dezessete anos.
E talvez seja isso que haja de mais humilhante.
Ninguém suspende a aula porque você está sofrendo.
O banco não prorroga o vencimento do boleto.
O mercado continua esperando que você escolha tomates maduros enquanto você tenta entender por que uma única pessoa foi capaz de deslocar o eixo do universo.
A juventude, ao menos, nos concedia o direito ao exagero.
Hoje, o exagero precisa caber entre uma reunião e outra sem chorar.
Entre responder “tudo certo” para quem pergunta como estamos e voltar para casa para conversar, pela centésima vez, com um fantasma que já deveria ter ido embora. Talvez seja esse o verdadeiro fim da juventude.
Não deixar de amar.
Mas descobrir que o mundo já não faz o menor esforço para acompanhar a violência dos nossos sentimentos. Enquanto uma parte de nós ainda quer morrer de amor, a outra precisa lembrar de comprar papel higiênico na volta para casa.
⚪ Uma delicadeza até no envelope.
🩸 Gostei do exagero.
✂️ Essa foi poda.
🪟 Clique aqui e veja a vista da janela de alguém no mundo.
(Vale para fugir um pouco da própria vida).





