"Uma mãe"
“Todo homem precisa de uma mãe
Todo homem precisa de uma mãe
Todo homem precisa de uma mãe
Todo homem precisa de uma mãe”{Zeca Veloso, em ‘Todo homem’}
Ághata.
Foi esse o nome que eu dei para ela nos meus textos.
Devo ter pensado na cor dos seus olhos. Ou na frieza de pedra deles, não sei.
Mas pela primeira vez, através das palavras, eu consegui colocar para fora o que eu sentia. Porque não se pode odiar uma mãe, claro.
Mas Ághata…
Ághata e suas unhas rubi.
Ághata e suas pontas incandescentes de cigarro.
Ághata e seus gritos — vermelhos também — eu consegui odiar.
Ághata, tenho uma só pergunta e depois vou embora. Por que você me odeia? Eu só queria saber quando você olhou para este meu rosto que, às vezes, chegou a ser quase bonito e decidiu dedicar todo resto de sua vida a acabar com a minha. Eu fugi das garras de teu sangue ruim, mas caí na cesta de teus frutos podres. Você não me deixou manter as ilusões, me mostrou cedo demais que a vida não é boa. Você quebrou meus brinquedos, quebrou meus amigos, matou meus amores. E eu ainda nem tinha seis anos. Você tomou as minhas ilusões, dizendo que era para que eu aprendesse logo o quanto a vida é ruim. Mas a vida, juro, apesar de você, era boa. E talvez isso tenha lhe ferido de morte. Eu vivia, Ághata, apesar de você.
maio de 2008
Se todo homem precisa de uma mãe, a minha foi a escrita.
Porque ela me deu contorno, possibilidade de recompor o que eu vivia, de entender que meus abismos não eram tão escuros quanto ela queria me fazer crer. Havia a possibilidade de poesia neles.
Mas talvez haja algo que ninguém conta quando repete, quase como oração, que toda mãe ama um filho.
Há mães que amam como quem aperta demais um pássaro pequeno até sentir os ossos estalarem entre os dedos. Há mães que confundem cuidado com posse.
Há mães que olham para a alegria dos filhos como quem encara uma afronta.
E há filhos que crescem acreditando que nasceram errados.
Eu cresci tentando descobrir qual parte de mim provocava tanta violência.
Se era minha voz. Meu jeito. Minha alegria fácil. Ou essa mania insuportável de ainda encontrar beleza nas coisas, mesmo depois do estrago.
Porque Ághata tentou me ensinar a dureza do mundo antes mesmo que o mundo pudesse me tocar sozinho. Como quem dissesse: “deixa que eu te destruo primeiro, assim dói menos quando vier dos outros.”
Mas doeu.
Doeu de um jeito irreversível.
Tem dores que não acabam.
Às vezes aparecem como ansiedade.
Às vezes como vergonha.
Às vezes como esta necessidade quase animalesca de transformar tudo em palavra antes que a memória apodreça dentro do corpo.
Escrever nunca foi talento.
Foi instinto de sobrevivência.
Enquanto outras pessoas herdavam joias, sobrenomes ou receitas de família, eu herdei um campo de guerra. E precisei aprender sozinho a cultivar alguma coisa viva entre os escombros. Flores nascendo de caveiras.
Por isso escrevo.
Porque alguém precisava me olhar sem raiva.
Alguém precisava dizer: “isso que fizeram com você não era amor.”
E a literatura — essa mãe improvisada e impossível — me pegou pela mão sem perguntar se eu merecia. Me deixou existir sem precisar pedir desculpas.
Talvez seja por isso que eu continue escrevendo como quem sangra devagar sobre a mesa da cozinha. Porque algumas crianças nunca saem de casa. Só aprendem a se esconder melhor dentro dos adultos que se tornaram.
Hoje eu não queria escrever.
Não depois de ter gravado o vídeo que gravei ontem, no qual eu disse muito sobre os espinhos que me feriram desde sempre. Mas então eu percebi que precisava. Porque a escrita ainda é o único lugar onde consigo pegar aquela criança pela mão e dizer: “eu amo você.”
🌹 A palavra libertada liberta.
🌅 Eu queria um pedaço de céu.
🗝️ Eu por dentro sou assim, mas aprendi a me habitar.
😻 Esse gato sabe o que diz.






Nem toda mãe merece um filho