"Someday"
âTodas essas cidades fantasmas
pelas quais eu sigo viajando,
todas essas placas de trĂąnsito
e bares solitĂĄrios
me arrebatando atĂ© vocĂȘ.
E eu juro que eu consigo ser melhor.
Consigo ser mais para vocĂȘ.
Mas hĂĄ coisas no meio do meu caminho,
coisas que eu preciso enfrentar.Se o passado ainda te assombra,
deixa ele te acompanhar.
E ele vai te encontrar de novo, algum dia.
Eu me vi amarrado
a esse trilho de trem,
mas vou voltar para vocĂȘ, algum dia.
Para vocĂȘ, para vocĂȘ, para vocĂȘ, algum dia.
(All of these ghost towns
I keep traveling through
All of these traffic signs
And lonesome bars
Blindsiding me to you and
I swear I can be better
I could be more to you
But there are things
That lie in my path
That I just have to doIf youâve got visions of the past
Let them follow you down
And theyâll come back to you someday
And I found myself attached
To this railroad track
But Iâll come back to you someday
To you, to you, to you someday)â{First Aid Kit, em âGhost Townâ}
Eu nĂŁo sei quantos anos faz.
Posso dizer que foi na Ă©poca das poesias, como quem diz que foi no tempo dos dinossauros. Foi isso. Foi na Ă©poca em que ainda me cabiam poesias, em que eu ainda era inventivo e ouvia palavras vindas do cĂ©u. Foi na Ă©poca bĂblica, no tempo das sarças ardentes e dos bosques de mil caminhos. Foi no tempo fora de Ă©poca de nĂłs dois.
Foi.
E porque foi, eu preciso pedir perdĂŁo. Eu preciso me ajoelhar aqui fora, na rua, sentindo a curiosidade de quem passa como faca, sentindo a pedra suja, a poça dâĂĄgua da chuva da tarde, sentindo vocĂȘ atrĂĄs da janela, com vergonha tambĂ©m. Mas eu preciso, preciso pedir perdĂŁo se naquela Ă©poca, naquele tempo irreal de sonho e sempre pĂŽr do sol, eu te fiz sentir insuficiente.
E eu poderia te justificar de mil formas a minha ignorĂąncia. Poderia me pintar inteiro de aquarela: inocente e delicado. Mas eu nĂŁo sou. Em parte eu queria mesmo te machucar. Eu queria que seu coração quebrasse e caĂsse porque foi isso que vocĂȘ fez com o meu. Queria que vocĂȘ experimentasse a insĂŽnia, o desamparo, a sensação de ser uma criança sozinha em uma terra estrangeira.
Eu queria tirar seu sossego, seus olhos, seu orgulho inteiro pela boca.
E eu queria tirar sua roupa.
Mas vocĂȘ tinha outros planos para nĂłs. VocĂȘ tinha as prĂłprias feridas para lamber e eu nĂŁo entendi. NĂŁo entendi porque vocĂȘ nĂŁo foi no nosso encontro, se eu tinha tantas palavras para te dar. Palavras, poemas, cançÔes e tudo mais que era eu.
Eu segui estrelas, eu atravessei desertos, eu admiti pesadelos dentro de mim por vocĂȘ. E vocĂȘ nĂŁo pĂŽde me dar uma sĂlaba sĂł.
Nem um sim.
Se vocĂȘ tivesse ido naquela noite, eu nĂŁo teria meus dedos no teclado agora, mas entre os seus. Eu nĂŁo estaria assoprando um cafĂ© queimado, mas os pelos do seu braço. Eu nĂŁo estaria mordendo meus lĂĄbios. Eu estaria mordendo os seus.
Ou não também.
Porque a vida jĂĄ teria se encarregado de nĂłs. Afrodite nĂŁo deixaria que ardĂȘssemos mais do que ela. E nĂłs arderĂamos, atĂ© as cinzas, eu sei. Eu sei porque estou aqui, cheirando meu perfume em vez do seu, escrevendo outro texto para vocĂȘ, dos tomos e tomos que jĂĄ existem. E eu nunca escrevi tanto para alguĂ©m que nĂŁo vai ler. Tratados inteiros sobre os nĂłs entre nĂłs dois.
E eu digo âse vocĂȘ tivesse idoâ, mas isso vem da minha parte que ainda quer te fazer sangrar. Porque nĂŁo Ă© isso que eu quero dizer. VocĂȘ me embaralha, me confundifica, me tira do maço e nĂŁo fuma atĂ© o fim. O que eu queria mesmo dizer Ă© isto: desculpa. Desculpa se fiz vocĂȘ pensar que nĂŁo era suficiente, que nĂŁo valia uma vida.
VocĂȘ valia, como vale o sol que dĂĄ corda a todo um sistema em volta dele. Eu jĂĄ te disse que vocĂȘ Ă© um sol, nĂŁo disse?! VocĂȘ arde e queima a si mesmo, mas nunca consegue a luz de que precisa. VocĂȘ queria ser lua, queria que alguĂ©m viesse e te iluminasse, revelasse seu contorno, abraçasse tudo, sem olhar para a parte escura. Mas vocĂȘ brilha a ponto de cegar, vocĂȘ derrete as asas de Ăcaros demais.
E eu, apesar de me chamar de anjo na Ă©poca, nĂŁo consegui voar atĂ© vocĂȘ.
Hoje sei. Sou anjo caĂdo. Sou abismo. Eu sou a profundeza do chĂŁo. A matĂ©ria escura do universo inteiro. E eu digo âse vocĂȘ tivesse idoâ, mas hoje sei que eu poderia nĂŁo ter esperado. Poderia ter procurado vocĂȘ pelos caminhos todos. Poderia ter feito nosso Ășltimo abraço durar quatro segundos mais. SĂł quatro segundos mais e vocĂȘ teria entendido o que eu agora fico tentando dizer com as palavras que nĂŁo me vĂȘm. Mas eu soltei vocĂȘ primeiro, nĂŁo soltei?
Quando beijei seu pescoço, hoje eu sei, eu poderia ter lambido. Poderia ter mordido atĂ© sangrar. Poderia ter subido minha boca alguns centĂmetros mais e ter provado seu gosto de maçã. Mas eu nĂŁo fiz isso, fiz?!
NĂŁo. Eu voltei para casa. Eu escrevi mensagens. Toquei âRideâ sem parar enquanto construĂ com madeira de demolição um novo coração para ficar no lugar do que quebrou. Se ele bate ou apanha, nĂŁo te interessa mais. Porque Ă© um coração que vocĂȘ nunca vai ver, eu acho.
NĂŁo porque vocĂȘ nĂŁo Ă© suficiente. Era isso que eu queria dizer.
E talvez eu sĂł esteja entendendo agora â tarde, como quase tudo que importa â que nunca foi sobre o que faltava em vocĂȘ. Foi sobre o que transbordava em mim sem direção, sem medida, sem maturidade suficiente para sustentar o que sentia.
Eu te quis com a urgĂȘncia de quem descobre o mundo pela primeira vez. Com aquela fome desorganizada, quase violenta, de quem nĂŁo sabe ainda a diferença entre amor e vertigem. E, no meio disso, fui descuidado. Fui cruel onde achava que estava sendo intenso. Fui silĂȘncio onde deveria ter sido presença.
E isso também precisa ser dito, mesmo que agora.
Porque Ă© fĂĄcil, com o passar dos anos, romantizar aquilo que nĂŁo aconteceu. Transformar ausĂȘncia em destino, silĂȘncio em mistĂ©rio, desencontro em alguma forma de grande amor impossĂvel. Mas nĂŁo foi isso.
Foi humano.
Foi falho.
Foi incompleto como tudo que ainda estĂĄ aprendendo a ser.
Hoje, quando escuto essa mĂșsica, quando atravesso essas cidades fantasmas que sĂŁo as lembranças de nĂłs dois, eu nĂŁo penso mais no que poderia ter sido. Penso no que foi. E no que, apesar de tudo, ainda pulsa de alguma forma estranha dentro de mim.
(De nĂłs?)
Assim, visito nossa histĂłria: entrando nos esqueletos das casas, sentando Ă mesa posta Ă s aranhas, olhando â jĂĄ sem fome â para uma refeição que esfriou. Eu passo por esses lugares, vejo na TV os vĂdeos que gravei para vocĂȘ, ouço sua voz cantando ao fundo, abro um armĂĄrio tarde demais e encontro seu casaco preferido nele, descosido por traças. Mas no bolso, amarelado e de tinta fraca, ainda hĂĄ um bilhete. Um bilhete com a minha letra, ou a sua. E uma palavra sĂł.
Um segredo, uma promessa nossa, uma mentira daquelas que nos ajudam a viver:
Someday.
âïž VocĂȘ merece ouvir esse carinho. Tati Fadel Ă© incrĂvel demais.
â€âđ„ Este poema me pegou demais esta semana.
đź Eu nĂŁo vejo a hora de tentar isso.






EstĂĄ muito legal a tua news.
Textos lindos. Amei a inspiração DiĂĄrio PossĂvel, nao conhecia e jĂĄ estou seguindo o podcastđ