"Para dentro do homem"
“Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía.”
{Valter Hugo Mãe, em ‘O filho de mil homens’}
Não.
Hoje, eu não vou te olhar nos olhos.
E é porque… sabe…. eu não sei se você vai entender tudo que eu tenho para te dizer.
Ou… pior ainda… É porque eu sinto que não suportaria olhar para eles e ver a indiferença nascendo ali. Ver o quão pouco você se importa.
E eu nem sei por onde começar. Porque eu não sei encontrar um início. E isso me incomoda também. Como se eu fosse um daqueles labirintos dos livros infantis. E a resposta fosse clara, óbvia até, mas eu não conseguisse ver. É assim. Tudo emaranhado e sem ponta…
Já sei. Lembra de quando eu disse para minha mãe que eu precisei aprender a não sentir?! Que se eu ainda sentisse alguma coisa, morando com ela, eu já teria me matado há muito tempo?!
Então.
É meio que isso.
Eu precisei me dessensibilizar, entende?!
Eu precisei endurecer, criar uma couraça, para que ela deixasse de me atingir tão fácil. Narcisistas acionam todos os nossos gatilhos, você sabe. Viramos campo de guerra. Então eu precisei de escudos em vez de armas químicas e poemas.
Mas depois de iniciado esse processo de petrificação, eu acho que não consegui parar. Talvez, o que eu esteja tentando te dizer, mesmo sem conseguir te olhar nos olhos, é que eu aprendi tão bem a me proteger que acabei me calando inteiro.
Eu me perdi, meu amor. E agora já não sei mais distinguir onde termina a defesa e onde começa o silêncio. Até onde vão minhas cercas de arame farpado? Eu não sei mais. E o que elas tanto defendem, afinal?!
Eu não sei.
Às vezes acho que é só o vazio que restou.
Lembra de quando eu brincava dizendo que havia feito o mesmo que a Rainha Má da série “Once Upon a Time”?! Que eu havia arrancado meu coração e guardado numa caixinha para não sentir mais nada?!
Então.
Isso deixou de ser brincadeira.
O problema é que a defesa, quando funciona, tende a se automatizar. Ela deixa de responder ao perigo real e passa a operar por antecipação. Eu já não preciso mais da guerra para manter os escudos erguidos.
E talvez seja por isso que eu não te olho nos olhos. Porque o olhar é um dispositivo de desarme. Ele atravessa as mediações, contorna os argumentos, expõe a pulsação. Olhar é sempre correr o risco de ser visto.
E eu passei anos aperfeiçoando a arte de não me deixar ver.
Só que há um efeito colateral nisso, que eu não previ: quando você reduz a intensidade para sobreviver, reduz também a possibilidade de vínculo. A anestesia que protege da dor protege igualmente do encontro. E, sem encontro, a vida vai ficando funcional demais. Correta demais. Silenciosa demais.
É.
Eu aprendi a racionalizar. A meditar. A deixar a raiva fluir e se transformar em outra coisa. Eu aprendi a encontrar meu centro e a permanecer nele. De um jeito que até Buda se orgulharia. E eu ainda chamei isso de evolução, acredita?!
De maturidade.
Eu não arranquei meu coração, claro. Mas eu o deixei sem circulação.
E ele necrosou.
Talvez, no fundo, eu não esteja com medo de te olhar nos olhos, mas de encontrar um vazio no lugar do meu reflexo. Eu já não existo em você, eu sei.
Agora, são três horas da manhã e ninguém se importa. Ninguém vai aparecer para me colocar na cama. Ninguém vai me abraçar porque eu preciso. Ser adulto é isso, no fim, eu sei. Minha mãe me odeia, meu pai está morto. Minha filha está dormindo e dela eu não posso precisar. Estou coagulado de ausências e esqueci como se sente.
Há problemas maiores lá fora, eu sei.
Enchentes, perdas reais, guerras malditas.
E tudo isso me comove, dói. Não sou um sociopata, sabe?!
Eu sei nomear tragédias geopolíticas, sei me indignar, sei sentir empatia à distância. Sei chorar num filme e sorrir com um poema. O que eu já não sei é atravessar a própria sala escura e admitir que, apesar de tudo, eu também preciso. Não de um tratado de paz mundial. Mas de um gesto. De um olhar que não me atravesse como se eu fosse vidro. Da sua voz dizendo alguma coisa baixinho. Bem baixinho. Qualquer coisa.
Porque eu já não sei se ainda sei amar sem armadura.
Eu não sei se ainda sei precisar de alguém sem sentir vergonha.
Eu não sei se ainda sei existir na sua frente sem me retrair.
E, talvez, o que doa mais não seja estar sozinho no escuro às três da manhã.
Talvez seja perceber que fui eu quem aprendi a apagar a luz.
✨ Estamos presos.
🌈 O que você descobre ao se investigar.
🐋 Vidro e luz.





