"Ao crepúsculo"
“Ao crepúsculo, pensarão sempre naquelas mulheres que faziam qualquer coisa por amor. E, apesar de tudo, descobrirão que esse é o seu momento favorito do dia. É a hora em que se lembram de tudo o que as tias lhes ensinaram. É a hora pela qual se sentem mais gratas.”
{Alice Hoffman, em ‘Da magia à sedução’}
Fotógrafo de jardim — era assim que eu chamava a mim mesmo alguns anos atrás.
Quando me apaixonei pelos cliques, logo tratei de economizar o suficiente para comprar uma câmera profissional, uma Canon. E até uma lente de 50mm.
Tudo para fotografar gatos ao sol.
Gatos à sombra.
Flores.
Folhas caídas.
Trevos de três folhas só.
Pequenezas de todos os tipos.
Fotografar era, para mim, uma forma de aprender a olhar.
Eu passava horas agachado diante de coisas que quase ninguém percebia. Ajustava o foco, esperava a luz mudar alguns milímetros, prendia a respiração para não tremer. E quando o clique finalmente acontecia, não era exatamente a imagem que me interessava: era o instante de atenção que a antecedia.
Aquela suspensão breve em que o mundo parecia desacelerar o suficiente para caber dentro de um retângulo. Aquele momento em que algo transcendental se manifestava, congelando um segundo no tempo.
Hoje eu penso que havia, naquela obsessão pelas pequenas coisas, um tipo de aprendizado silencioso.
Porque o jardim ensina paciência. Ensina escala. Ensina que o extraordinário quase sempre acontece no território do mínimo. Uma flor não floresce porque alguém decidiu que hoje é o dia. Um gato não se deixa fotografar porque você quer. É preciso esperar. Habitar o tempo das coisas.
Anos depois, percebo que não era exatamente o jardim que eu estava tentando capturar.
Era aquele estado de espírito.
Aquela gratidão miúda.
A sensação de que, apesar de tudo, ainda existe beleza suficiente no mundo para justificar um olhar para o detalhe, para o ínfimo, para o modo como eu me sentia: minúsculo e preso a um jardim. Acuado até.
Hoje, sou fotógrafo de imensidões.
Minha lente quebrou. Minha Canon está em algum lugar do escritório, acumulando poeira. Mas minha galeria do celular está repleta de fotos do céu. Crepúsculos, plantações, nuvens, arco-íris, meu território agora é o infinito.
Talvez porque a vida tenha ficado grande demais, em algum ponto do caminho, o jardim deixou de bastar. As pequenas delicadezas continuam ali: os gatos, as folhas, os trevos obstinadamente comuns. Mas eu já não conseguia me agachar diante delas com a mesma calma. Havia uma urgência diferente em mim, uma espécie de sede de horizonte.
Então comecei a levantar a cabeça.
Primeiro por acaso. Um céu cor de cobre no fim da tarde. Depois outro. Depois nuvens que pareciam arquipélagos, depois uma faixa de luz atravessando a plantação como se o mundo tivesse sido aberto por dentro. E quando percebi, minha galeria já não estava cheia de pequenas coisas, mas de vastidões.
Fotografar o céu é muito diferente de fotografar um jardim.
No jardim, você se aproxima. Você escolhe o detalhe, delimita o mundo, cria um enquadramento íntimo. No céu, não. No céu você aceita que quase nada está sob seu controle. As cores mudam em segundos, as nuvens se desfazem antes que você termine de focar, e a beleza acontece numa escala que não cabe na tela de nenhum aparelho.
Talvez por isso eu tenha migrado para lá.
Porque houve um tempo em que eu precisava aprender a olhar o mínimo.
Agora, talvez eu esteja aprendendo a suportar o imenso.
Ainda existe algo de devocional nisso. O mesmo gesto de parar. O mesmo impulso de guardar um instante antes que ele desapareça. Mas o sentimento mudou de lugar.
Antes eu me sentia minúsculo dentro do jardim, com medo do mundo, do olhar alheio. Trocava de bom grado a liberdade pela segurança das grades.
Hoje, eu me sinto parte de alguma coisa muito maior do que a grama em que piso.
E talvez seja isso crescer: descobrir que o mundo não termina no jardim onde aprendemos a olhar — ele começa ali.
E, para vê-lo, é preciso erguer os olhos.
☁️ Quero aprender agora a desenhar nuvens também.
🌈 É sobre isso também (em inglês) o post de hoje: pessoas machucadas também vêm para quebrar ciclos.
🤹♂️ Sobre ampliar a visão.
🟡 Queria morar aqui.
💀 Eu já mandei esses bordados? Isso me lembra uma história. News que vem, quem sabe.
PS1: Este é o e-mail que você deveria ter recebido na segunda, caso eu não tivesse me passado na hora de programar o envio. 🫣 Sinto muito por isso.
PS2: Pati, obrigado por sentir falta!









