"A vida é isso"
“A vida é isso, não sabemos nunca e mesmo assim vivemos, percebes?”
{Socorro Acioli, em ‘Oração para desaparecer’}
Será que ela sabia?!
A Escola, digo. Será que ela sabia, quando entrei por sua porta pela primeira vez, aos 4 anos de idade, que um dia estaria ali dentro sozinho, responsável por fechar cada janela, desligar um outro ar-condicionado e trancar todas as portas?
Será que ela via naquele menino franzino o homem feito que seria, um dia, professor e vice-diretor, mesmo que nunca quisesse aquilo?!
Ou será que foi ela quem me fez, pouco a pouco, sem que eu percebesse?
Porque há lugares que não apenas nos acolhem, eles nos moldam. E o Imaculada, para mim, sempre foi esse tipo de território. Um espaço que parecia maior por dentro, onde o tempo tinha outra espessura e os corredores guardavam uma espécie de memória silenciosa de tudo o que ali aconteceu.
Eu entrei pequeno, com a mochila quase maior que as costas, e saí (ou melhor, nunca saí) carregando comigo pedaços de tudo aquilo que vivi ali. As primeiras letras desenhadas com esforço. O recreio com a Profe Marli nos cuidando no parquinho. O medo das provas. A cola passada para a filha da professora de matemática. O encantamento com alguns mestres. A implicância com outros. As amizades que surgiram. O bullying que nem nome tinha…
Na soma de tudo isso, sem perceber, fui ficando.
Primeiro como aluno.
Depois como alguém que voltava para visitar.
Depois como professor.
Hoje, como alguém que apaga as luzes.
E há algo de profundamente simbólico nisso.
Apagar as luzes de um lugar que me viu acender.
Caminhar pelos corredores vazios depois que todos foram embora é quase como atravessar a própria memória. Cada sala parece conter versões de mim que ficaram ali: o menino tímido, o adolescente que passava os recreios na biblioteca, o jovem inseguro, o adulto que ainda tenta entender como chegou até esse ponto.
No momento silencioso, quando fecho a última porta e giro a chave, há uma sensação difícil de nomear: algo entre responsabilidade e pertencimento, entre cansaço e gratidão.
Porque a vida é isso, como escreveu Socorro Acioli.
A gente não sabe.
E, mesmo assim, vive.
E, sem perceber, um dia se encontra sozinho, apagando as luzes do lugar onde tudo começou. O lugar que me mostrou que eu era capaz, mesmo que minha mãe insistisse em demonstrar o contrário. O lugar que me deu uma paixão que moldou tudo: o encantamento pelos livros, pelas palavras, pela vida.
Os físicos dizem que o tempo é uma ilusão. Que o passado e o presente e o futuro estão acontecendo todos ao mesmo tempo. Nós é que nos deslocamos de um momento a outro, criando a impressão de uma cronologia.
Por isso, eu me pergunto: enquanto comia ameixinhas amarelas no pátio, enquanto escondia debaixo da blusa um livro de química que não podia ser retirado — para fazer o tema e depois devolver, enquanto me apaixonava pela primeira vez (pela filha da professora de matemática, claro), eu já estava sozinho lá dentro, no escuro, pensando sobre o futuro? Sobre as escolhas que preciso fazer?
Há algo de vertiginoso nisso.
Porque, enquanto caminho pelos corredores vazios, tenho a sensação de que estou atravessando mais do que o espaço. Estou atravessando versões de mim que, de algum modo, continuam ali. O menino que entrou com quatro anos, o adolescente que passava o recreio na biblioteca, o jovem que não sabia bem o que fazer da própria vida… e agora eu, com as chaves na mão, pensando sobre portas que talvez ainda nem tenham sido abertas.
E é nesse momento que a pergunta volta, insistente:
Será que ela já sabia?
Não como um destino traçado, não como uma vocação revelada cedo demais, mas como esses movimentos silenciosos que a vida vai organizando sem pedir nossa autorização. Como se, enquanto eu apenas vivia, alguma coisa fosse me empurrando suavemente para um lugar que nunca planejei ocupar.
Porque eu nunca quis isso.
Nunca pensei em mim como alguém responsável por uma escola, por decisões, por pessoas, por histórias que não são apenas minhas. Sempre me vi mais confortável no território das palavras, das salas, dos encontros miúdos que acontecem longe das mesas de reunião.
E, ainda assim, às vezes me pego caminhando por esses corredores com uma sensação estranha, como se estivesse me aproximando de alguma coisa que não escolhi, mas que, de algum modo, me escolheu.
Não sei.
Talvez a vida seja isso também: esse diálogo silencioso entre quem fomos e quem ainda estamos nos tornando.
Há uma coisa que faço, às vezes, à noite, quando estou sozinho. Não sei ao certo quando comecei, nem por quê. Mas existe um ponto específico no chão do meu quarto, marcado só por mim. Quando estou bem, deito ali e coloco a mão no chão, como se estivesse deixando um gesto guardado para o futuro. Um afago atravessando o tempo. Um cuidado que não sei quando vou precisar, mas que deixo ali, disponível.
E, quando estou mal, volto ao mesmo lugar.
Coloco a mão naquele ponto e fico ali por alguns segundos, como se encontrasse uma versão minha mais inteira, mais tranquila, alguém que passou por ali antes e deixou, discretamente, uma espécie de companhia.
Não é superstição.
É uma forma de continuidade.
Uma maneira de lembrar que o tempo talvez não seja essa linha rígida que imaginamos, mas um campo onde nos encontramos, às vezes, de mãos dadas com quem fomos e com quem ainda seremos.
E então volto para a escola.
Abro as portas.
Caminho pelos corredores.
Acendo as luzes para mais uma noite.
E, por um instante, penso que talvez eu esteja fazendo o mesmo gesto: deixando algo preparado para um eu futuro, alguém que ainda não sei exatamente quem será, mas que a vida se encarregará de transformar.
🔎 Sobre prestar atenção.
🦴 Tenho gostado tanto dessa poesia meio mórbida dessas ilustrações…
🪞 Já que estamos falando do tempo…
💥 Sou louco por dizer que essas imagens me acalmam?
🤎 Essas tatuagens me deram uma ideia…






Na escola, você está em casa... beijo!